Falando em escola, pessoal, saiu ontem, dia 13, a primeira chamada dos candidatos que tentaram e ainda tentam concorrer a uma vaga em instituições de ensino superior através do SISU (Sistema de Seleção Unificada). Deixe-me explicar brevemente como funciona; os prós e os contras e porque o governo federal decidiu substituir os vestibulares convencionais por esse sistema.
Mas falar de SISU e não falar de ENEM é como falar de Platão e não falar de Sócrates. Iniciemos, então, por esse.
| Ex Ministro da educação Paulo Renato Souza, criador do ENEM durante o governo FHC. |
Em 2004 é criado o ProUni(Programa Universidade para Todos) que oferece bolsas de estudo para alunos que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas. Com isso, o ENEM torna-se popular, atingindo, em 2005, a marca inédita de 3 milhões de inscritos.
Após a popularização do ENEM, no ano de 2009 o governo muda o caráter da prova - que fica igual ao atual - criando uma espécie de "Vestibular Nacional". Com essa mudança, o ENEM estaria apto para substituir um vestibular convencional, e esse era o passo que faltava para a criação do SISU.
No ano seguinte, entra em cena o Sistema de seleção unificada. No site do mesmo, candidatos de todo o Brasil podem concorrer uma vaga de alguma instituição de ensino superior - em sua esmagadora maioria instituições federais - que aderiu ao SISU, utilizando a nota que obtiveram no ENEM.
Uma maravilha, não é mesmo? Você pode morar em Macapá, por exemplo, e pleitear uma vaga em alguma universidade no Rio Grande do Sul sem precisar ir do Oiapoque ao Chuí fazer o vestibular. A ideia do governo federal foi nobre em tentar unificar a concorrência de todos os vestibulares federais em uma única prova. Mas nem tudo são flores: vazamento de provas, universidades que desistiram de aderir ao ENEM, divulgação errônea de gabaritos e inversão deles, erros na impressão de cadernos de prova e erros de citação são apenas alguns exemplos. Mas tudo isso é normal…é…até certo ponto. Sejamos imparciais, meus caros leitores. Seja qual for a situação, fazê-la pela primeira vez é sempre uma tarefa difícil. Dirigir um carro pela primeira vez, cozinhar pela primeira vez e até mesmo andar pela primeira vez! Algo tão banal, um dia, foi difícil. Com o ENEM também é assim, ainda mais algo tão grandioso, feito para milhões de pessoas. Porém, existe algo muito importante que difere o ENEM dessas situações que apresentei: a vida de milhares de pessoas - no caso do ENEM e do SISU - está em jogo. E isso deve ser levado em consideração. Uma pequena falha pode levar muitos a "perder" mais um ano lutando por uma vaga na universidade desejada.
Todos esses pontos negativos, entretanto, vêm se mostrando serem passageiros. O SISU está a cada dia se consolidando como o principal meio de entrada para o ensino superior. A cada ano, mais instituições aderem ao sistema.
| Página inicial do portal do SISU onde pode-se escolher duas opções de curso e trocá-las se haver interesse |
Isso é o que me incomoda muito. A pessoa que pleiteia a uma vaga em algum vestibular concorrido, com certeza, estudou muito. E, para mim, permitir que esse tipo de coisa aconteça é o mesmo que brincar com a vida das pessoas. Estar nessa situação é algo horrível para, pelo menos, os 5 colocados acima e abaixo da nota de corte. Não há parâmetros para apoiar as ações que cada um fará no momento da escolha: manter o curso que se deseja e arriscar ser não convocado, ou escolher outro curso que se deseja menos e não correr o risco de não ser convocado. Uma escolha errada pode custar ao candidato mais um ano de batalhas árduas e insanas em busca da sonhada vaga na universidade. Nossas vidas não podem ser decididas como se fossem um jogo de cara ou coroa, no qual ganhar ou perder, manter ou trocar de curso, depende exclusivamente da sorte.
Confesso que, apesar de estar criticando o SISU, não tenho ideias do que fazer para que isso não ocorra.A única coisa que vem em minha cabeça e que pode amenizar essa situação horrível na qual os candidatos passam é programar o site para atualizar-se em tempo real, mas isso seria impossível por razões técnicas.
Em meio a controvérsias, o SISU promete ser o principal meio de acesso ao ensino superior do Brasil. Porém ainda há muito a melhorar. Não saber se será aprovado ou não, havendo a possibilidade de trocar de curso é terrível. Se continuasse assim, melhor seria manter o sistema tradicional, ou seja, o qual cada universidade prepara seu próprio vestibular, pois dessa forma, pode-se concorrer livremente, não se limitando as duas únicas opções do SISU. No sistema tradicional, se não aprovado em x e y, ainda há a possibilidade de concorrer a z. No SISU, não sabemos nem se seremos aprovado em x e y para mudar a opção de curso para z por exemplo. Mas não podemos deixar os pontos positivos de lado. Uma única prova lhe permite acesso a centenas de instituições; o sistema de cotas universaliza o acesso ao ensino superior e promove o dever de integração socioeconômica das universidades (isso já é uma outra conversa, mas, para mim, instituições públicas têm um dever muito maior com a sociedade do que simplesmente oferecer a ela educação de qualidade) e o sistema de pesos permite ter-se mais flexibilidade ao escolher o perfil dos candidatos.
Bom pessoal, então é isso. Deixo para vocês a tarefa de escolherem: melhor com, ou sem SISU? Apresentei para vocês algumas características da iniciativa federal de modo imparcial.
Espero vocês em minha próxima postagem. Até a próxima!
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