MAX WEBER
Max
Weber - considerado um dos fundadores da sociologia - em sua célebre
obra "A ética protestante e o 'espírito do capitalismo'
", propõe uma visão a qual capitalismo
estaria relacionada à totalidade dos aspectos representados no Geist (Espírito)
que tem inspirado a vida de toda uma época. Em outros termos, capitalismo estaria relacionado às
características do povo de um determinado momento histórico. Esse espírito é o
que Weber chama de "espírito capitalista", e capitalismo é uma
sociedade na qual esse espírito apresenta-se inserido no éthos
do povo dessa sociedade.
Dessa forma, para entendermos capitalismo, precisamos entender o que é
"espírito capitalista", e para entendermos o que é "espírito
capitalista", precisamos pontuar sua íntima ligação com a religião
protestante. Para ser mais específico, precisamos pontuar a ideia que essa
religião expressa sobre trabalho e lucro e como essa ideia contrastava com a
ideia vigente na Europa durante a idade média: a ideia católica.
Nessa época, a igreja católica
possuía preponderância suficiente para promulgar preceitos irrefutáveis os
quais seriam seguidos pela esmagadora maioria dos indivíduos com fé - ou
simplesmente por temor do inferno -inseridas nesse contexto histórico. Um
desses preceitos era a condenação da usura (na Idade Média, entendida
simplesmente como juros), ou seja, a igreja católica condenava aqueles que, ao
vender seus produtos, cobrassem além do "preço justo" de uma
mercadoria - em poucas palavras, o preço da matéria prima e do trabalho alocado
nessa mercadoria. Quem o fizesse, estaria cometendo um pecado, e assim estariam
mais próximas do inferno, e o inferno é o lugar onde há dor e sofrimento
intermináveis. Sendo assim, trabalho, segundo a ética católica na idade
media, era um simples meio de garantir a subsistência do indivíduo. Com o
advento do protestantismo, a ideia que algumas sociedades passam a ter sobre
usura muda drasticamente. Muda do inferno para o céu...literalmente. Agora;
segundo a ética protestante e, principalmente, a ética calvinista; o
trabalho deixa de ser apenas um meio de garantir a subsistência e passa a ser
entendido como um dever moral, visto que para os
protestantes, a profissão era um meio enobrecedor e dignificador do homem,
pois durante o período em que trabalha, o indivíduo não encontra tempo de
contrariar as regras divinas: não pratica excessos, não cede à luxúria e não se
entrega à preguiça.
Em relação a ética protestante,
Weber (2007) escreve:
"Acima de
tudo, este é o summum bonum
dessa 'ética': ganhar dinheiro e sempre mais dinheiro, no mais rigoroso
resguardo de todo gozo imediato do dinheiro ganho, algo tão completamente
despido de todos os pontos de vista eudemonistas ou mesmo hedonistas e pensado tão
exclusivamente como fim em si mesmo [...]como inteiramente
transcendente e simplesmente irracional. O ser humano em função do ganho como
finalidade da vida, não mais o ganho em função do ser humano como meio
destinado a satisfazer suas necessidades materiais. Essa inversão da ordem, por
assim dizer, 'natural' das coisas[...]é tão manifestamente e sem
reservas o leitmotiv do
capitalismo."(WEBER, Max. 2007, p. 46)
Para Weber, portanto, o capitalismo teria originado e dessa
forma se desenvolvido, na medida em que a cultura, ao ser modificada, gera
um novo éthos, o qual embora não tivesse como objetivo estabelecer
uma nova ordem econômica, e sim moral, passa a sustentar a essência do novo
sistema econômico, o "capitalismo". O novo éthos, dessa
forma, possui certas características que Weber denomina
de "espírito capitalista": aquele que visa ao lucro de
forma racional e sistemática, resguardando-se de todos os prazeres imediatos a
fim de lucrar ainda mais, e faz tudo isso apoiado por uma ética que dignifica
quem age dessa maneira.
Em poucas palavras, Weber aloca - ou
quem sabe, desloca - toda a definição de capitalismo para a cultura de um povo.
Simples assim: capitalismo é um
sistema econômico que possui como agentes econômicos indivíduos providos de um
"espírito capitalista" os quais, sustentados por uma ética - a ética
protestante - buscam, racional e sistematicamente, o lucro por buscar o lucro,
o lucro com um fim em si mesmo, a ponto desses agentes trocarem a lógica da
relação lucro-humanidade, ou seja, como diz Weber (2007), os indivíduos passam
a estar em função do ganho e aceitam isso como finalidade de suas vidas e
não mais o ganho está em função desses agentes como meio destinado a satisfazer
suas necessidades materiais.
HENRI PIRENNE
Henri Pirenne e muitos outros estudiosos
viam capitalismo nas cidades e no
comércio. Essa segunda visão, nas palavras sintetizadas de Dobb (1983),
identifica o capitalismo como uma "[...] organização de produção para o
mercado distante [...]". Em outros termos, Pirenne identifica capitalismo como um sistema econômico no
qual a produção não necessariamente se destina aos mercados locais. Para
compreendermos melhor essa visão, é conveniente utilizar a história como nossa
ferramenta de apoio.
Na idade média, segundo Pirenne
(1963), as pessoas das cidades - como por exemplo padeiros, carniceiros,
ferreiros, oleiros, peleiros etc. - produziam alguns produtos artesanais e
alguns serviços a fim de troca-los, na
esmagadora maioria das vezes, por produtos agrícolas e na minoria das vezes por
dinheiro. Naquela época existiam aqueles que produziam e vendiam localmente e
aqueles que trabalhavam com um fim de exportar. Ora, a grande maioria da
população das cidades era composta por esses pequenos produtores, e esses
produtores eram quem tanto vendiam para os produtores agrícolas quanto quem
compravam deles. Assim, tornou-se comum a organização de grêmios,
que protegiam os artesãos locais da concorrência estrangeira.
O capitalismo, segundo Pirenne, teria originado na medida em que o
comércio foi intensificando-se. Por esse mesmo motivo, ele não identifica o fim
da Idade Média com a tomada de Constantinopla, e sim com o século XII, com a
revolução comercial e com a expansão das cidades. Considerava, pois, que o
ressurgimento das cidades e do comércio de longa distância, paulatinamente,
dissolvia o feudalismo. Para ser mais
exato, capitalismo só seria capitalismo assim que, segundo Dobb,
entre:
"[...] os
atos de produzir e de vender a varejo se separassem no espaço e no tempo pela
intervenção de um comerciante atacadista que adiantava dinheiro para a compra
de artigos com o fito de subsequente venda com lucro."(Dobb, Maurice.
1983, p. 16)
Nessa visão, o capitalismo seria um
sistema comercial, um sistema de economia de trocas, no qual o princípio
orientador da atividade econômica é o lucro irrestrito. E o que traz à tona, o
que deixa à vista o capitalismo são as cidades, que é o único lugar onde a
atividade comercial pode intensificar-se e por-se em plena atividade
KARL MARX