MAX WEBER
Max
Weber - considerado um dos fundadores da sociologia - em sua célebre
obra "A ética protestante e o 'espírito do capitalismo'
", propõe uma visão a qual capitalismo
estaria relacionada à totalidade dos aspectos representados no Geist (Espírito)
que tem inspirado a vida de toda uma época. Em outros termos, capitalismo estaria relacionado às
características do povo de um determinado momento histórico. Esse espírito é o
que Weber chama de "espírito capitalista", e capitalismo é uma
sociedade na qual esse espírito apresenta-se inserido no éthos[1]
do povo dessa sociedade.
Dessa forma, para entendermos capitalismo, precisamos entender o que é
"espírito capitalista", e para entendermos o que é "espírito
capitalista", precisamos pontuar sua íntima ligação com a religião
protestante. Para ser mais específico, precisamos pontuar a ideia que essa
religião expressa sobre trabalho e lucro e como essa ideia contrastava com a
ideia vigente na Europa durante a idade média: a ideia católica.
Nessa época, a igreja católica
possuía preponderância suficiente para promulgar preceitos irrefutáveis os
quais seriam seguidos pela esmagadora maioria dos indivíduos com fé - ou
simplesmente por temor do inferno -inseridas nesse contexto histórico. Um
desses preceitos era a condenação da usura (na Idade Média, entendida
simplesmente como juros), ou seja, a igreja católica condenava aqueles que, ao
vender seus produtos, cobrassem além do "preço justo" de uma
mercadoria - em poucas palavras, o preço da matéria prima e do trabalho alocado
nessa mercadoria. Quem o fizesse, estaria cometendo um pecado, e assim estariam
mais próximas do inferno, e o inferno é o lugar onde há dor e sofrimento
intermináveis. Sendo assim, trabalho, segundo a ética católica na idade
media, era um simples meio de garantir a subsistência do indivíduo. Com o
advento do protestantismo, a ideia que algumas sociedades passam a ter sobre
usura muda drasticamente. Muda do inferno para o céu...literalmente. Agora;
segundo a ética protestante e, principalmente, a ética calvinista; o
trabalho deixa de ser apenas um meio de garantir a subsistência e passa a ser
entendido como um dever moral, visto que para os
protestantes, a profissão era um meio enobrecedor e dignificador do homem,
pois durante o período em que trabalha, o indivíduo não encontra tempo de
contrariar as regras divinas: não pratica excessos, não cede à luxúria e não se
entrega à preguiça.
Em relação a ética protestante,
Weber (2007) escreve:
"Acima de
tudo, este é o summum bonum[2]
dessa 'ética': ganhar dinheiro e sempre mais dinheiro, no mais rigoroso
resguardo de todo gozo imediato do dinheiro ganho, algo tão completamente
despido de todos os pontos de vista eudemonistas[3] ou mesmo hedonistas[4] e pensado tão
exclusivamente como fim em si mesmo [...] como inteiramente
transcendente e simplesmente irracional. O ser humano em função do ganho como
finalidade da vida, não mais o ganho em função do ser humano como meio
destinado a satisfazer suas necessidades materiais. Essa inversão da ordem, por
assim dizer, 'natural' das coisas[...]é tão manifestamente e sem
reservas o leitmotiv[5] do
capitalismo."(WEBER, Max. 2007, p. 46)
Para Weber, portanto, o capitalismo teria originado e dessa
forma se desenvolvido, na medida em que a cultura, ao ser modificada, gera
um novo éthos, o qual embora não tivesse como objetivo estabelecer
uma nova ordem econômica, e sim moral, passa a sustentar a essência do novo
sistema econômico, o "capitalismo". O novo éthos, dessa
forma, possui certas características que Weber denomina
de "espírito capitalista": aquele que visa ao lucro de
forma racional e sistemática, resguardando-se de todos os prazeres imediatos a
fim de lucrar ainda mais, e faz tudo isso apoiado por uma ética que dignifica
quem age dessa maneira.
Em poucas palavras, Weber aloca - ou
quem sabe, desloca - toda a definição de capitalismo para a cultura de um povo.
Simples assim: capitalismo é um
sistema econômico que possui como agentes econômicos indivíduos providos de um
"espírito capitalista" os quais, sustentados por uma ética - a ética
protestante - buscam, racional e sistematicamente, o lucro por buscar o lucro,
o lucro com um fim em si mesmo, a ponto desses agentes trocarem a lógica da
relação lucro-humanidade, ou seja, como diz Weber (2007), os indivíduos passam
a estar em função do ganho e aceitam isso como finalidade de suas vidas e
não mais o ganho está em função desses agentes como meio destinado a satisfazer
suas necessidades materiais.
HENRI PIRENNE
Henri Pirenne e muitos outros estudiosos
viam capitalismo nas cidades e no
comércio. Essa segunda visão, nas palavras sintetizadas de Dobb (1983),
identifica o capitalismo como uma "[...] organização de produção para o
mercado distante [...]". Em outros termos, Pirenne identifica capitalismo como um sistema econômico no
qual a produção não necessariamente se destina aos mercados locais. Para
compreendermos melhor essa visão, é conveniente utilizar a história como nossa
ferramenta de apoio.
Na idade média, segundo Pirenne
(1963), as pessoas das cidades - como por exemplo padeiros, carniceiros,
ferreiros, oleiros, peleiros etc. - produziam alguns produtos artesanais e
alguns serviços a fim de troca-los, na
esmagadora maioria das vezes, por produtos agrícolas e na minoria das vezes por
dinheiro. Naquela época existiam aqueles que produziam e vendiam localmente e
aqueles que trabalhavam com um fim de exportar. Ora, a grande maioria da
população das cidades era composta por esses pequenos produtores, e esses
produtores eram quem tanto vendiam para os produtores agrícolas quanto quem
compravam deles. Assim, tornou-se comum a organização de grêmios[6],
que protegiam os artesãos locais da concorrência estrangeira.
O capitalismo, segundo Pirenne, teria originado na medida em que o
comércio foi intensificando-se. Por esse mesmo motivo, ele não identifica o fim
da Idade Média com a tomada de Constantinopla, e sim com o século XII, com a
revolução comercial e com a expansão das cidades. Considerava, pois, que o
ressurgimento das cidades e do comércio de longa distância, paulatinamente,
dissolvia o feudalismo. Para ser mais
exato, capitalismo só seria capitalismo assim que, segundo Dobb,
entre:
"[...] os
atos de produzir e de vender a varejo se separassem no espaço e no tempo pela
intervenção de um comerciante atacadista que adiantava dinheiro para a compra
de artigos com o fito de subsequente venda com lucro."(Dobb, Maurice.
1983, p. 16)
Nessa visão, o capitalismo seria um
sistema comercial, um sistema de economia de trocas, no qual o princípio
orientador da atividade econômica é o lucro irrestrito. E o que traz à tona, o
que deixa à vista o capitalismo são as cidades, que é o único lugar onde a
atividade comercial pode intensificar-se e por-se em plena atividade
KARL MARX
A última visão de capitalismo o define como um modo de produção específico.
Para que se entenda a visão marxista de capitalismo, é necessário entender esse
termo.
Modo de produção é um determinado
modo pelo qual as sociedades produzem seus produtos e bens necessários a fim de
manter-se e perpetuar-se. Ele é constituído, por sua vez, pelas forças produtivas e pelas relações sociais de produção. As forças
produtivas são meios de
produção, de um lado, e força
de trabalho de outro. Os meios
de produção são recursos produtivos físicos: ferramentas,
maquinária, matéria-prima, espaço físico etc. A força de trabalho inclui não apenas a força física dos
produtores, mas também suas habilidades e seu conhecimento técnico (que eles
necessariamente não dominam), aplicados quando trabalham.
Forças produtivas, então, consiste na força de trabalho humana e e nos meios de produção[7] de uma determinada
sociedade.
O desenvolvimento histórico das forças produtivas tem resultado
numa capacidade sempre crescente das sociedades produzirem excedentes sociais
cada vez maiores. Dentro desta evolução, cada sociedade têm sido dividida, de
modo geral, em dois grupos antagônicos. Um deles - a maioria da sociedade -
trabalha exaustivamente para produzir o necessário para sustentar e perpetuar o modo de produção, bem como o
excedente social; enquanto o outro - a minoria da sociedade - se apropria desse
excedente e o controla. As relações sociais resultantes desse processo de
produção entre os indivíduos dessas duas classes é, portanto, o que chamamos
de relações socias de produção.
Sintetizando:
modo de produção é o
conjunto das ferramentas e espaço físico com os quais se produz (meios de produção), somado à força
física e conhecimento técnico necessários para a utilizar esses espaços e ferramentas
de uma determinada sociedade (força
de trabalho), ou seja, as forças
produtivas (meios de
produção + força de trabalho) além da relação
social resultante desses processo de produção (relações sociais de produção).
Quando se diz que capitalismo é um modo de produção específico, é porque ele não é
o único modo de produção. O que é conhecido por "feudalismo", também
é considerado um modo de produção
segundo aqueles que defendem a visão marxista, ou seja: o modo de produção feudal. Para
facilitar o entendimento do que é o modo de produção capitalista, explicar-se-á
brevemente o modo de produção feudal. Nesse, o principal meio de produção eram os feudos - terra concedida por um senhor ao
seu vassalo - e as forças de trabalho
eram os servos que trabalhavam três dias da semana na sua terra e outros três
dias na terra do senhor, além do conhecimento científico da época (podemos
citar, por exemplo, a rotação de culturas). Assim, as relação social resultante
desse processo de produção, as relações
sociais de produção, foram a de suserania e vassalagem - uma relação de
reciprocidade na qual o suserano dava ao vassalo a terra e as ferramentas
necessárias para o próprio sustento do vassalo e, em troca, esse devia oferecer
fidelidade absoluta ao suserano.
Com o auxílio das palavras de Hunt
(1981), o capitalismo segundo a visão marxista teria se formado com o processo
de criação de uma classe operária sem propriedades, economicamente indefesa e
dependente, e com a criação de uma classe capitalista rica, com o controle
monopolista sobre os meios de produção. Depois
de formada essas duas classes antagônicas,
o capitalismo desenvolveu-se a partir de:
"[...] uma
força motivadora que impelia o sistema - a ânsia incessante de acumular capital.
A posição social do capitalista e seu prestígio, bem como seu poder econômico e
político, dependiam do valor do capital por ele controlado. Ele não podia ficar
parado; era atacado de todos os lados pela concorrência acirrada. O sistema
exigia que ele acumulasse (capital) e ficasse mais poderoso, a fim de vencer seus concorrentes, caso contrário, estes
o imprensariam contra a parede e tomariam seu capital. Só pela acumulação de
melhor capital é que este desafio poderia ser vencido."(HUNT, E. K. 1981
p. 241)
Foi, portanto, essa ânsia incessante
de acumular capital, a qual acentuava-se por causa da concorrência entre os
capitalistas, que caracterizavam o desenvolvimento e perpetuação desse modo de produção, o modo de produção capitalista...continua na outra parte.
[1] Ethos é uma palavra de origem grega a qual significa "caráter".
Hoje ela é designada para caracterizar o aspecto moral, os valores, o modo de
ser e o próprio caráter das diferentes sociedades.
[2] Summum bonum, na filosofia,
designa a importância
máxima, o bem maior que o ser humano deve buscar
[3] Eudemonismo
é uma filosofia que acredita ser a busca da felicidade a
principal causa dos valores morais
[4] Hedonísmo,
assim como eudemonismo, é uma filosofia que acredita ser a busca do prazer a
principal causa dos valores morais. No texto de Weber, o autor quer dizer que a
importância máxima dessa ética não tem nenhuma relação com a busca da
felicidade (eudemonismo) ou do prazer (hedoísmo).
[6] Grêmios (ou
corporações de ofício) eram associações que surgiram na idade média para
regulamentar a produção nas cidades e procuravam manter o monopólio de um
produto específico.
[7] Deve-se entender "meio" como o lugar onde se
produz, ou seja, o espaço físico onde se produz, e os objetos com os quais se
produz
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