O que é, afinal,
capitalismo? Tanto a primeira perspectiva de capitalismo, quanto a segunda,
compartilham um defeito: elas são insuficientes e, sendo assim, incapazes de diferenciar
períodos históricos. Se capitalismo fosse apenas um sociedade com pessoas que
visam ao lucro de forma racional e sistemática, ou ainda, se fosse um sistema
comercial organizado para o mercado distante,
então a Grécia antiga, o império romano, e até mesmo a Idade Média
eram, em certo grau, capitalistas. A compra de escravos na antiguidade era um
emprego "lucrativo"; nessa mesma época, o comércio no Mediterrâneo
era intenso, e era um comércio orientado para o mercado distante (inclusive era
um comércio ultramarino); a Idade Média, ao contrário do que muitos pensam, não
era uma sociedade estável, dado que entre os séculos XI e XIV, havia um
comércio relativamente grande, o qual cresceu, principalmente, depois das
cruzadas. Prova disso é que 8 em cada 10 cidades européias forma fundadas nesse
período. Se assim fosse, todos esses períodos históricos seriam capitalistas.
Portanto, o Geist que tem
inspirado a vida de toda uma época e a organização de produção para o mercado
distante, explicam em partes o que é capitalismo, mas não nos deixa claro o que
diferencia esse sistema econômico dos outros. Essas visões não nos fornecem com
exatidão a definição de capitalismo. Porque, de fato, os meios pelos quais a
sociedade se organizava, na antiguidade, para produzir os bens necessários para
conservar-se e perpetuar-se eram muito diferentes dos meios pelos quais a
sociedade européia nos séculos XVIII e XIX se organizava. É incoerente comparar
o sistema econômico da Grécia e Roma nos séculos antes de cristo com a
Inglaterra no século XIX. Assim, é logicamente errado dizer que essas duas
sociedades, tão diferentes, possuíam o mesmo sistema econômico.
A visão marxista de capitalismo é
mais precisa no sentido de que pontua certas características que somente são
encontradas no "capitalismo que surgiu na Inglaterra entre os séculos
XIII, XIV e XV" e que mantém suas características principais até hoje.
Uma delas é a propriedade privada
dos meios de produção. Significa dizer, novamente com o auxílio Hunt[1] (1981), que no
capitalismo, a sociedade da a certas pessoas o direito de determinar como
matérias primas, ferramentas, maquinária e edifícios destinados a produção
podem ser usados. Esse direito implica necessariamente que outros
indivíduos sejam excluídos do grupo daqueles que possuem a propriedade privada.
Dessa forma, a propriedade se concentra nas mãos de um pequeno segmento da
sociedade: os capitalistas. Um capitalista proprietário não precisa representar
qualquer papel direto no processo produtivo com o intuito de controla-lo, a
propriedade em si lhe da esse controle. E essa propriedade foi o que permitiu
ao capitalismo a apropriação do excedente social, permitindo, a partir daí, que
os capitalistas se estabelecessem como classe dominante. No feudalismo, por
exemplo, os servos - quem de fato produziam as mercadorias - possuíam suas
terras, possuíam ferramentas, enfim, possuíam seus meios de produção. No capitalismo há um "divórcio"
entre a propriedade e o trabalho, quem possui os meios de produção não participam mais do processo produtivo.
A outra é a existência de um grande
segmento da sociedade que não pode existir, a não ser que venda sua força de
trabalho no mercado. No capitalismo, a maioria dos trabalhadores não possui o
que é necessário para produzir uma mercadoria. Por conseguinte, um trabalhador
típico entra no mercado possuindo ou controlando somente uma coisa: sua
capacidade de trabalho, isto é, sua força
de trabalho. Se quiser dedicar-se a atividade produtiva, o trabalhador deve
vender sua força de trabalho a um capitalista e, em troca, receber um salário.
Desse modo, ao contrário de qualquer outro modo de produção anterior, o
capitalismo faz da própria força produtiva humana uma mercadoria em si mesma, e
gera um conjunto de condições pelas quais a maioria das pessoas não pode viver,
a não ser que elas sejam capazes de vender a mercadoria de que são
proprietárias - a força de trabalho -
a um capitalista, em troca de um salário. Com esse salário, podem comprar dos
capitalistas somente uma fração das mercadorias que eles mesmo produziram. O
restante delas constitui o excedente social, e é retido e controlado pelos
capitalistas.
Entretanto, não se pode excluir as
visões de Weber e Pirenne, visto que elas completam a definição de capitalismo.
Ora, como não falar da divisão do trabalho, que acarreta em um volume colossal
de comércio e comércio internacional? Como não falar de racionalidade sistemática, de um lado, e
do consumismo, do outro, que são, respectivamente, dois comportamentos os quais
sem eles, o capitalismo seria impossível de perpetuar-se? Portanto, duas
características a mais devem ser pontuadas para essa definição.
Uma é
a produção de mercadorias orientada pelo mercado e para o mercado. No
capitalismo, para que uma mercadoria exista, e que ela possa chegar ao alcance
de consumo de cada indivíduo, é preciso que a sociedade tenha, primeiro, um mercado
desenvolvido e, segundo, um sistema comercial organizado para o mercado distante. Um mercado desenvolvido porque sem ele os produtos não podem ser comprados ou vendidos livremente, assim
como os grêmios monopolistas da idade média. Um sistema comercial organizado para o mercado distante porque o capitalismo buscou sempre aumentar a produtividade, e uma das primeiras formas de se aumenta-la foi por causa da divisão do trabalho, o que teve como consequência o seguinte: o que cada indivíduo produz não é o que ele, de fato, precisa para sobreviver. Adam Smith (1983) explica isso dizendo que o aprimoramento das forças produtivas do trabalho é decorrente da
maior destreza, bom senso e economia de tempo, que por sua vez é decorrente da
divisão do trabalho:
"Em
primeiro lugar[...]o aprimoramento da destreza do operário aumenta a qualidade
de serviço que ele pode realizar; a divisão do trabalho, reduzindo a atividade
de cada pessoa a alguma operação simples e fazendo dela o único emprego de sua
vida, necessariamente aumenta muito a destreza do operário[...]Em segundo
lugar, a vantagem que se aufere economizando o tempo que geralmente se perderia
no passar de um tipo de trabalho para outro é muito maior[...]É impossível
passar com muita rapidez de um tipo de trabalho para outro, porque esse é
executado em lugar diferente e com ferramentas muito diversas. (SMITH,
Adam. 1983, p.44, 45)
Além
disso, após algum tempo, a divisão do trabalho acarretou a divisão
internacional do trabalho. Logo, a interdependência social entre indivíduos de
uma mesma nação - ou até mesmo de nações distintas - aumentou, gerando uma solidariedade orgânica entre eles.
Assim, no capitalismo, é impossível que as sociedades tenham ao seu alcance
tudo de que necessitam, uma vez que a divisão do trabalho gera especificidades
- enquanto alguma empresa processa alimentos, outra produz roupas, por exemplo.
E essas necessidades, as vezes, são encontradas além da própria nação.
Portanto, não é possível falar em capitalismo, sem que haja um comércio
organizado para o mercado distante.
A outra definição que deve ser
pontuada é justamente o "espírito capitalista" e o "espírito
consumista" de uma sociedade capitalista.
Ambos os comportamentos são necessários para o funcionamento
adequado do sistema, o qual demonstra, a cada dia, seu nível crescente de
competitividade entre capitalistas por fatias maiores do excedente social. O
"espírito capitalista" - que visa ao lucro, de maneira racional e
sistemática, resguardando-se de todos os prazeres imediatos para lucrar ainda
mais - é essencial em uma sociedade competitiva, pois é a base moral que
sustenta essa luta incessante entre capitalistas, que estão sempre preocupados em aumentar o nível de produção. Por outro lado, é necessário,
também, que um "espírito consumista" - aquele que busca
incessantemente satisfazer seus desejos, sejam eles pragmáticos ou fantasiosos,
necessários ou diferenciativos, úteis ou inúteis; enfim, aquele que consome com
um fim em si mesmo - esteja presente no éthos
de uma sociedade capitalista, pois de nada adianta elevar a produtividade ao
máximo com o intuito de lucrar, se não houver uma demanda que satisfaça as
exigências dessa grande oferta. A produtividade, de fato, cresce
exponencialmente, e o que tem permitido isso é o aumento do nível de consumo.
Portanto, as visões de Weber,
Pirenne e Marx a respeito da origem, formação e desenvolvimento do capitalismo,
apesar de algumas divergências, de modo geral, se completam.
CONCLUSÃO
Vimos que para intervir na realidade
vigente, é preciso, antes, entendê-la; e que a compreensão dessa realidade está
intimamente ligada à compreensão de capitalismo, um sistema econômico o qual
possui quatro características particulares: propriedade privada dos meios de
produção; um grande segmento da sociedade que não pode existir, a não ser que
venda sua força de trabalho no mercado; produção de mercadorias orientada pelo
mercado e para o mercado; e, finalmente, existência de um "espírito
capitalista" e de um "espírito consumista" no éthos de um povo. Quando se compreende
essas quatro peculiaridades, compreende-se a natureza de nossos valores e de
nossa sociedade como um todo. Sendo assim, compreender o que foi dito é o
primeiro passo para aqueles que sentem que é preciso intervir em nossa
realidade - a qual está cheia de injustiças,
desigualdades, pobreza e arbitrariedade.
Vimos também que há
diversas visões sobre capitalismo, e que esse trabalho apoiar-se-ia nas visões
de Max Weber, Henri Pirenne e Karl Marx. Essas visões, se olhadas
separadamente, a princípio, pareciam não incompatíveis. No entanto, quando
olhadas por um mesmo prisma, se completam. Então não é possível falar de
capitalismo, sem falar de éthos,
comércio e modo de produção.
A função da economia, de modo geral, é compreender a natureza do sistema econômico
vigente, o capitalismo. Como esse sistema funciona, o que
determina o valor da produção, o que determina a distribuição da riqueza, qual
é a origem do sistema, quais são os padrões de seu desenvolvimento, etc. Basicamente,
o capitalismo é o objeto de
estudo da economia, ciência que teve início no século XVIII. Portanto, o debate secular que aqui foi exposto, com
certeza, não se encerrará aqui. Certamente, este, contribuirá para os próximos que
virão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOBB, Mauricie.
A evolução do capitalismo. 9ª ed.
São Paulo: Abril Cultural, 1983.
HUNT, E. K. História
do pensamento econômico. 26ª ed. Rio
de Janeiro: Campus, 2005.
PIRENNE, Henri. História social da idade média. 6ª ed. São
Paulo: Mestre Jou, 1963.
SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre
sua causa e suas naturezas. Volume I. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
WEBER, Max. A
ética protestante e o "espírito do capitalismo". 6ª ed. São Paulo:
Então é isso pessoal, espero que tenham aproveitado! Qualquer dúvida, sugestão ou comentário a respeito do tema, por favor, sintam-se a vontade para compartilhar suas ideias. Até mais pessoal!
[1] Essas características foram citadas por Hunt, em seu
livro História do Pensamento Econômico,
por isso, o trabalho dos dois próximos parágrafos foi o de simplificar suas
pontuações.
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